Por que quase com certeza Deus não existe

O Boeing 747 definitivo

Em sua forma tradicional, o argumento do design inteligente é certamente o mais popular da atualidade a favor da existência de Deus e é encarado, por um incrível número de teístas como completa e absolutamente convincente. Ele é realmente um argumento fortíssimo e desconfio que irrespondível. O argumento da improbabilidade, empregado de forma adequada, chega perto de provar que Deus não existe. O nome que dei à demonstração estatística de que Deus quase com certeza não existe é a tática do Boeing 747 definivo.

O nome vem da interessante imagem do Boeing 747 e do ferro-velho, de Fred Hoyle. Hoyle disse que a probabilidade da vida ter surgido na terra não é maior que a chance de um furacão, ao passar por um ferro-velho, ter a sorte de construir um Boeing 747. Outras pessoas tomaram a metáfora emprestada para se referir à evolução dos seres mais complexos, onde ela tem uma plausibilidade espúria. A chance de se montar um cavalo, um besouro ou um avestruz plenamente funcionais misturando aleatoriamente suas partes pertence ao mesmo terreno do 747. Esse, em termos muito resumidos, é o argumento favorito dos criacionistas (um argumento que só poderia ter sido pensado por uma pessoas que não entende o essencial da seleção natural: alguém que acha que a seleção natural é uma teoria do acaso, quando – no sentido relevante de acaso – se trata do contrário.

A apropriação equivocada do argumento da improbabilidade pelos criacionistas assume o mesmo formato bárico, e não faz nenhuma diferença se o criacionista prefere disfarçá-lo na vestimenta politicamente mais atraente de “design inteligente”. Algum fenômeno (com frequência uma criatura viva ou um de seus órgãos mais complexos, mas pode ser qualquer coisa desde uma molécula até o próprio universo) é corretamente enaltecido como estatisticamente improvável. Às vezes é usada a terminologia da teoria da informação: o darwiniano é desafiado a explicar a fonte de toda a informação da matéria viva, no sentido técnico de conteúdo da informação como medida de improbabilidade ou “valor surpresa”. Ou o argumento pode invodar o lema banal dos economistas: não existe almoço grátis (e o darwinismo é acusado de tentar tirar alguma coisa do nada). Na realidade, a seleção natural darwiniana é a única solução conhecida pera o enigma insolúvel sobre a origem da informação. É a hipótese de que Deus Existe que tenta tirar alguma coisa do nada. Deus tenta comer seu almoço grátis e também ser o almoço. Por mais estatisticamente improvável que for a entidade que se queira explicar através da invocação de um designer, o próprio designer tem de ser no mínimo tão improvável quanto ela. Deus é o Boeing 747 definitivo.

O argumento da improbabilidade afirma que coisas complexas não podem ter surgido do acaso. Mas muitas pessoas definem “surgir por acaso” como sinônimo de “surgir na ausência de um design deliberado”. Não surpreende, portanto, que elas achem que a improbabilidade seja uma evidência do design. A seleção natural darwiniana mostra quanto isso está errado a respeito da improbilidade biológia. E, embora o darwinismo possa não ser diretamente relevante para o mundo inanimado (a cosmologia, por exemplo), ele nos conscientiza a pensar sobre áreas externas ao território original da biologia.

O entendimento profundo do darwinismo nos ensina a desconfiar da afirmação fácil de que o design é a única alternativa para o acaso, e nos ensina a buscar rampas gradativas de uma complexidade que aumente lentamente. Antes de Darwin, filósofos como Hume compreenderam que a improbabilidade da vida não significa que ela necessariamente tenha sido projetada, mas não conseguiram imaginar qual seria a alternativa. Depois de Darwin, todos nós deveriamos desconfiar, no fundo dos ossos, da simples idéia do design. A ilusão do design é uma armadilha que já nos pegou no passado, e Darwin devia nos ter imunizado, conscientizando-nos. Quem dera ele tivesse sido bem-sucedido com todos nós.

Texto extraído do início do capítulo 4 e sutilmente modificado para se adaptar ao blog.
Do livro ‘Deus, um delírio’, Richard Dawins. Companhia das Letras.